Espaço de crítica tendencialmente destrutiva

segunda-feira, março 19, 2007

Otite aguda

Depois de um fim-de-semana em Lisboa, ainda mais caótico que o previsto (infelizmente por motivos tristes), toca de escrever algumas linhas sobre alguma coisa relevante para o nosso país. Nada como começar pela Otite.

Em termos médicos, a otite é uma infecção que afecta o ouvido. Em termos políticos a Otite é uma infecção que afecta os cidadãos desgovernados pelo Governo Sócrates. Caracteriza-se pela barragem de propaganda a favor do aeroporto na Ota contra estudos, ventos, marés e previsões astrológicas desfavoráveis. Provoca dor e espasmos em muitos e hiperdesenvolvimento da carteira de alguns. As vítimas da Otite são, em certos e determinados círculos, conhecidos como Otários.

Enfim, temos para nós que a Ota será útil para meia dúzia de fat cats. Os gatos pingados do costume. Quem tem os terrenos à volta (adorava conhecer o teor das certidões do registo predial das zonas próximas não afectadas pela servidão aeronáutica), quem se ocupar da construção e quem explorar o aeroporto ficará de papo cheio. Já para não falar dos terrenos da Portela.

E com que vantagens? Em relação à situação actual, aparentemente poucas. No máximo dos máximos os estudos mais recentes (sempre os "estudos"...de tráfego) conseguirão descolar 70 aviões/hora. Pouco mais do que actualmente, pois as duas pistas de aterragem da Ota não poderão ser utilizadas em simultâneo.

Comparemos com Barcelona. O aeroporto do Prat teve em 2006 mais de 20 milhões de passageiros (não obstante a Iberia tentar fazer tudo para que o Prat se limite a um centro de voos low cost). A Portela ficou-se pelos 12 milhões. Para ajudar à festa em 2008 entra em funcionamento o Terminal Sul do aeroporto barcelonês. E como este tem duas pistas paralelas que permitem aterragens simultâneas, continuará a crescer, enquanto Lisboa ficará com um "aeroporto de futuro" (em socrês) de capacidade pouco superior ao máximo da Portela.

Claro que essa socrática opção de fundo terá custos e benefícios. Custos para nós (eventuais utilizadores e certos financiadores por via dos nossos impostos), benefícios para os abutres habituais. Otites, portanto.

Mas nem só na capacidade da Ota o problema é espinhoso. A parte da construção é particularmente explosiva. Será que as abetardas decidentes deste país fazem ideia do que é um aterro que obrigará à movimentação de 50 milhões metros cúbicos de terra?

Certamente que desconhecem que na Expo aquando dos primeiros esboços, embora no final da obra não houvessem grandes terras sobrantes, em determinados momentos da obra haveria um superávit de 15 milhões de metros cúbicos de terra. Este tipo de poeira não se varre propriamente para debaixo de um tapete.

Em tempos, alguém com conhecimento de causa, explicou-me que essa quantidade de terras equivalia a um monte de tamanho inacreditável (a analogia específica perdeu-se no tempo...). Nem quero pensar na Torre de Babel que serão esses 50 milhões da Ota. Bem que podem meter canhões de neve artificial no topo e criar uma estância de ski às portas de Lisboa.

Otites, portanto.

A ser construída a Ota já antevejo Sócrates num acto de contrição semelhante ao que Aznar fez recentemente sobre a guerra no Iraque: Estávamos *todos* convencidos que existiam armas de destruição maciça.

Sócrates dirá: Estávamos *todos* convencidos que a Ota seria importante para o desenvolvimento do país.

Termino com um forte abraço ao DML.