Espaço de crítica tendencialmente destrutiva

terça-feira, dezembro 05, 2006

Andam há muito a brincar aos soldadinhos de chumbo!

A crónica de hoje quer-se curta mas teme-se longa, sem prejuízo recentes movimentos de protesto junto das forças armadas do país levam-nos periodicamente a discutir o papel da instituição na sociedade portuguesa, a par das reivindicações sindicais da mesma.

O consulado Guterres, pródigo no disparate e asneira gratuita, tanta que acabou atolado no próprio pântano criado, prestou-se a diversos episódios com a soldadesca, desde os populares urânios empobrecidos a outros menos afamados mas igualmente destrutivos ao moral das FA's. Junte-se a isto um Presidente da República, bem ao estilo da III República, completamente inepto no que toca a assuntos militares e a nau navega ao bom porto do disparate.

Nos anos Guterres, foram feitas concessões absurdas que resultaram na criação de associações de classe (corporativas) para a reivindicação profissional por parte dos militares, a betîsse da asneira será equiparável somente à incompetência desse executivo grosso modo. Tais associações, tal como nas forças de segurança, gozaram sempre de vêemente oposição das hierarquias militares, por motivos que facilmente se entendem, ou seja para além de se estar a criar uma segunda cadeia de comando dentro de uma sociedade assente na autoridade e em valores diferentes, estava-se a minar o poder das hierarquias, das quais os oficiais generais representam o pináculo e os respectivos chefes de estado maior e chefe dos três ramos são a face visível.

A criação das disparatadas instituições mina a posição das hierarquias uma vez que estas trabalhando por dentro, dão feedback aos diversos interlocutores. Interlocutores estes que, num momento de rara lucidez na vigente constituição são prioritariamente dois, o ministro da Defesa e o Presidente da República. A importância da casta castrense é assim reconhecida, gozando, através da cadeia de comando de canais directos aos diversos actores políticos, em qualquer dos casos é minimizada a ruptura total entre militares e o poder político, seja pelo PR ser o Comandante Supremo, logo parte da hierarquia, seja por se poderem fazer queixas a este que goza de uma panóplia de instrumentos para politicamente pressionar o Governo ou encontrar soluções harmoniosas entre ambos caso o conflito se agudize.

Ora num delírio socialista e digno dos tempos do PREC, foram criadas as chamadas associações profissionais que instilam temor no governo e pior, criam a segunda cadeia de comando. Ora, mas tal sucede na função pública e até com outras funções de soberania, tais como a administração de justiça.

É verdade, sem embargo o erro reside neste ponto, o comparar militares a amanuenses e professores. Em primeiro lugar por ser desprestigiante, e em segundo lugar por não serem os militares funcionários públicos mas sim "servidores do estado". Esta expressão é ressuscitada da defunta II República, contudo é verdadeira. O servidor do estado leva os seus deveres para além de um mero vínculo laboral, é todo um modo de vida e em certos casos de morte. O papel específico dos militares, a sua missão e estatuto justifica um tratamento diverso, desde tempos imemoriais assim foi, especialmente desde que o serviço militar deixou de ser obrigatório.

Por serem um caso específico os militares devem ser tratados com maior respeito que os restantes, por terem os seus direitos civicos reduzidos deveria o Estado cercear de cuidados a condição e o seu estatuto. O contexto dos últimos anos, desde 1995 mais agudamente demonstrou a ineptidão de sucessivos governos em lidar com os militares, os anos Portas, porventura foram a honrosa excepção, contudo estas situações ocorrem porque os militares perdem sucessivamente privilégios de função, a par de vencimentos crescentemente mínguos em comparação com outras profissões que nos consulados Guterres e já antes, ao abrigo do seu estatuto próprio de funções foram à rua protestar com sucesso para melhorias de vencimentos e demais benifícios. Os militares pelo contrário mantiveram-se, salvo conversas em certos circulos, confinados ao quartel, não protestando por dá cá aquela palha, ou proferindo até à data, ameaças surdas e idióticas como professores e demais lapas públicas que muito protestam e pouco fazem em prol da causa pública.

Sem dúvida que existe uma componente salarial ou sindical nos protestos dos militares e sem dúvida que esta é indissociável de qualquer profissão, contudo por protestarem serem diferentes devem os militares distanciarem-se da restante turba ululante de servidores públicos que sem honra nem brio dizem prestar um serviço ao país.

O movimento dos últimos anos têm colocado os militares como perdedores dentro do bolo do Estado, crescentes desinvestimentos, especialmente nas décadas de '80 e '90, perda de condições salariais e outras circunstâncias, influem negativamente na disciplina militar. A par da falta de sentido de estado de sucessivos governos nesta matéria que assumindo compromissos não os concretizam estão a empurrar os militares para fora dos quarteis para uma jiga joga que se teme negativa, talvez um dia encontre um primeiro ministro os militares na rua fardados e armados sem que hajam pretorianos para defender o regime.

Há muito que em Portugal se anda a brincar aos soldadinhos de chumbo todavia momento para acordar para um pensamento de defesa. Em todo o caso como todos sabem, a criação de uma segunda cadeia de comando, associações profissionais, que beneficiando da fraqueza de um Governo, somente destroiem por dentro a disciplina e papel das chefias militares pois se em movimentos desta índole se conseguem alguns dos almejados resultados então é preferível substituir estas por plenários, assembleias de membros, greves e outras formas de protesto que em todo o caso e no calor dos momentos poderam descambar em consequências mais gravosas.

À hierarquia e em sede própria cabe mostrar a espada e usar dos galões para que inquilinos sucessivos de ministérios e governos entendam que a perenidade das funções de estado e a disciplina se ganham com respeito. Basta de brincadeiras com coisas sérias, basta de dar com uma mão e tirar com a outra, basta de descredibilizar constantemente o estado português como se fosse feudo de um partido A ou B, um dia quem serve por gosto também se cansa.