Espaço de crítica tendencialmente destrutiva

terça-feira, novembro 28, 2006

Mais umas linhas numa qualquer tarde!

Reune na Letónia a primeira cimeira da NATO em territórios da Antiga URSS, vulgo «paraíso traído dos trabalhadores» para os letrados do PCP e outros, em que as populações eram alimentadas a propaganda em vez de géneros alimentícios. Em vez de embarcar por mais uma deriva socialista, trataremos da NATO, o seu papel passado futuro e presente.

Saudosos tempos do muro não são somente sentidos pelos melancólicos comunistas, em vários países europeus e americanos devem ser sentida uma nostalgia dos tempos da Guerra Fria, das simplicidades estratégicas que então se levantavam e do unanimismo em torno de organizações internacionais como a NATO ou do lado de lá, do Pacto de Varsóvia. A NATO, como é conhecido foi fundada em 1949 com um propósito muito simples, o de juntar numa mesma organização vários países, através de um desígnio estratégico comum. No conhecimento da história julgo que a NATO e seu acervo de tratados foram dos mais generosos de sempre, dos mais solidários e dos mais interessantes. A razão é simples, em '49 as hordas soviéticas poderiam varrer a Europa até ao Canal da Mancha em duas semanas sem grande oposição, a Europa estava de joelhos e a quinta coluna comunista estava em forte, colhendo grande aclamação e unanimismo entre intelectuais e proletários. Aliás comunismo e unanimismo sempre andaram de mãos dadas...

Continuando, foi de desígnio estratégico comum que as sortes de boa parte da Europa Ocidental e dos EUA Canadá e Turquia se juntaram, os franceses sempre foram franceses e intermitentes e conduziram sempre os seus interesses noutros planos. Tão forte foi o dissuassor e a gravidade do momento que o maior número de países na história assinou um tratado que previa a circunstância de, caso um fosse atacado, os remanescentes considerar-se-iam atacados e portanto obrigados a cooperar. A par disso no quadro NATO formaram-se gerações de militares, a Europa e os EUA partilharam, dentro do possível, tecnologias e integraram estruturas de comando, dentro de um quadro mais estritamente militar, contudo sem descurar o lado político, alias como é impossível uma vez que tensões diplomáticas se fazem sentir dentro da aliança, como hoje podemos observar.

Sem embargo contudo, no quadro NATO estabeleceu-se sem reservas que no quadro Europeu e Americano um ataque a um membro, seria um ataque a toda a aliança. Em bom momento foi promovida a adesão da Turquia, por forma a colocar uma base avançada e um respaldo contra a esfera socialista de influência. O caminho foi longe de pacífico, sendo que em 1975(6) as tensões escalaram quase a um conflito militar entre dois membros, a Turquia e aGrécia, assim como durante anos sucessivos de Gaulismo de aturaram os «arrufos» amorosos do General e posteriormente de seus sucessores. Durante os anos foram engrossando sucessivamente detratores deste belíssimo sistema internacional, fora por serem olharapos a soldo de Moscovo, seja por uma vez terminado o soldo de Moscovo sobrava o ódio ou inveja que frequentemente se entrelaçam enquanto sentimentos. A esses pergunto se alguma vez a NATO promoveu intervenções sanguinárias como a realizada em '68 na Checoslováquia, em nome da «solidariedade socialista», ou sucessivas ameaças posteriores, como na Polónia em '80 entre outras? Pois caros camaradas, nunca a NATO foi instrumento de chantagem e os seus tratados constituintes serviram como os do Pacto de Varsóvia para a institucionalização de ingerências em nome de solidariedade socialista, ou seja imprimir aos seus aderentes o expediente político de Moscovo, ou seja tudo caladinho e vermelhinho.

Caído o muro, mudou o paradigma estratégico, o inimigo com quem se dividiam fronteiras ruiu por dentro e as ameaças mudaram, para os mais desatentos, desde o dia 11 de Setembro, para os outros um pouco antes. Mais ainda a Europa, um dos lados têm ambições que ninguém entende muito bem, a começar pelos iluminados de Bruxelas que ora dispõe mas nada põe. Utopias como projectos estritamente europeus de defesa e tudo mais disfarçam uma ingratidão latente aos EUA, mas também um ciúme forte, uma vez que se no modelo «Guerra Fria», a Europa seria um teatro fundamental, logo gozando de peso em face dos EUA, para instalação de operações mas não só enquanto parceiro político, no mais recente futuro, a teoria das alianças varáveis está em voga, também as ameaças simétricas e outros eufemismos empregues pelos cada vez menos pragmáticos teóricos das relações internacionais.

Uma análise sem eufemismos e palavreado de trazer de livros diz o seguinte, a Europa não têm a importância de 1989, militarmente não projecta força para além dos seus limites estratégicos, em termos separados os países europeus, sendo potências médias têm boas vantagens culturais e económicas, perder tempo com os de Bruxelas não vale a pena, ademais sendo as ameaças outras, a quem interesse, ou seja aos EUA interessa procurar outros parceiros regionais, tal como o Paquistão, a Índia ou outros que se imponham consoante as circunstâncias. Óbvio que a análise não é assim tão simplista, contudo quem se encontra na encruzilhada é também e principalmente a Europa. A ameaça norte americana está bem definida é o terrorismo, aonde este se encontre, ja o disse W. Bush há muito tempo.

Lógico que os EUA não podem descurar os aliados europeus numa lógica meramente de transacção, ou seja uma vez que não sendo necessários serem descartados, contudo a Europa não poderá ser o bastião da moralidade e costumes ou outras causas mais ilusórias, enquanto projecta fraqueza aos olhos de todo mundo. Alias talvez o erro seja falar de Europa, uma vez que em caso algum os seus membros representam uma frente concertada e interessada em promover e manter as finalidades do tratado do Atlântico Norte. Assim sendo o papel da Europa não deve ser o de contraponto aos EUA, tal é errado em última instância levará à destruição da massa que une os nossos destinos de defesa, devendo optar por uma via pragmática ou seja encontrar maneiras de cumprir a agenda que prometeu respeitar salvaguardando os seus interesses, alias as melhores parcerias são estas. De menos não se pode exigir aos EUA que apreciem a Europa a cotações de 1989, nem esta estar à espera dos tempos que já passaram.

A riqueza de uma parceria estratégica reside para além de valores comuns na utilidade que os diversos membros têm reciprocamente, ou seja mostrando-se a Europa demasiado cara para os seus benefícios ou os EUA demasiado exigentes, tal só poderá resultar no término do encontro de vontades que até hoje juntou ambos.

Igualmente não resulta útil para a Europa, para além da necessária concertação estratégica buscar consensos com a Rússia que joga noutro plano, a par não será bom jogo procurar aprofundamentos políticos e económicos por um lado e depois colocar as fronteiras da NATO o mais a Oeste possível de preferencia bem encostadas ao império de Putin. Primeiro por ser absurdo e pouco credível e segundo por não ser aconselhável pois por diversas vezes os russos demonstaram uma capacidade inexcedível para recuperarem e melhor ainda se aproveitarem das fraquezas das potÊncias europeias quando aliadas entre si. Não perdendo tempo com os que acham que nenhuma aliança querem e entendem que o que vêm dos EUA é nefasto, somos propensos a que a NATO continue a ser a primeira linha estratégica militar europeia e nacional, isto sem prejuízo da UE encontrar consórcios e formas mais concertadas de intervenção desde que nem prevalentes nem coincidentes com o escopo NATO. Não foi por acaso que os EUA invocaram a famosa cláusula 5ª do tratado NATO aquando o 11 de Setembro, foi também um aviso aos estados europeus para mudarem de "modelo" estratégico, a luta futura é contra o terrorismo e outras formas de ameaças.

A Europa compreendeu e reconhece o papel da NATO, sem embargo dos mirabolantes discursos de Bruxelas da utopias francesas ou outros, melhor prova ó Afeganistão, teatro longínquo de operações, bem fora do âmbito originário dos founding fathers de '49, ou mesmo do momentum histórico de 1989 ou 1992. Não é de menos verdade que a Europa quer o sol na eira e a chuva no nabal, ou seja o chapeu americano de defesa, a par do papel de "grilo falante" da moralidade.

É com o lamento de não conseguirmos ter aflorado o tema a que nos haviamos proposto que terminamos, com o ensejo de que a NATO seja daqui a 50 anos fruto do mesmo debate, era bom sinal, de que existia.