Paul Wolfowitz, a sua namorada e a mulher de Cesar
Já várias vezes escrevi sobre o problema de alguns políticos se montarem no cavalo da sobranceria moral e, quando menos esperarem, darem um valente tombo na primeira curva. Ou no primeiro vendaval inesperado.
Desta vez a triste sina tocou a Paul Wolfowitz que tão bem havia escapado à razia nos neocons da administração Bush ao longo do último ano. A mudança de túnel de realidade não lhe permitiu manter-se a salvo das suas próprias asneiras.
Primeiro foi o episódio dos sapatos gastos e das meias com buracos, indumentária muito própria para o governador do Banco Mundial. Mas este episódio foi parar ao baú das anedotas.
Agora, e mais grave, foi a promoção da namoradinha de Wolfowitz dentro da burocracia do próprio Banco Mundial sem respeitar as regras internas da instituição. O próprio já veio a terreiro dizer que não se demite. Para quê, pergunto eu?
Ninguém questiona o direito da senhora (ou da rapariga) a ser promovida seguindo os parâmetros vigentes no dito Banco. O que é questionável é a sua promoção ao arrepio dessas mesmas regras, assente apenas no mérito de partilhar o leito com o governador. Se fosse num país do terceiro mundo, seria apenas "business as usual", uma forma corriqueira de nepotismo.
É aqui que entra a história da mulher de César do célebre provérbio romano. O Banco Mundial faz gáudio em defender uma política de tolerância zero quanto à corrupção nos projectos que financia. E a meu ver, muito bem. A corrupção é, porventura, o male que mais contribui para o fraco desenvolvimento de muitos países. O dinheiro para a gasosa como dizem em Moçambique. O Banco Mundial chega ao ponto de ter uma hotline para onde as pessoas podem fazer denúncias, inclusivé, de forma anónima. Levam a "coisa" da corrupção muito a sério, ao ponto de suspenderem projectos de milhões quando os governos dos países devedores fecham os olhos à corrupção e se recusam a afastar os prevaricadores.
Pena é que o Banco Mundial tenha dois pesos e duas medidas e não seja capaz de impor as suas draconianas normas dentro da sua própria casa.
Caso para terminar com outro provérbio: faz o que eu digo, não faças o que eu faço.
Certo é que a credibilidade do Banco Mundial no que toca à corrupção acabou de ir cano abaixo. Como poderá agora o Banco Mundial exigir que os países a quem empresta dinheiro não cedam à tentação da corrupção?
Ou acham que foi coincidência a expulsão do representante do Banco Mundial num país da América do Sul?
