Os novos-ricos do canudo (e bater no ceguinho)
Tenho acompanhado à distância a bronca com a Independente (este nome está enguiçado, primeiro o jornal, agora a universidade) e com o Sr. (por via das dúvidas...) Pinto de Sousa.
E quanto mais olho para a história pior me cheira. Aliás, fede. Vide a mais recente notícia sobre este tema.
A verdade é que desde sempre conhecemos o Eng. Sócrates, digo o Sr. Pinto de Sousa, como o Engenheiro. Pelos vistos, um Engenheiro de obras feitas. Aliás, o que não falta para aí são "engenheiros", "arquitectos" e "doutores" com cadeiras dos respectivos cursos por acabar.
Quantos "ilustres" fizeram o curso de Direito na Universidade de Lisboa nos anos 70 com as famosas passagens administrativas ou orais votadas por camaradas com braço no ar? Uma boa mão-cheia dos mui ilustres doutores da nossa praça jurídica. Mas disso ninguém fala.
Mas também não interessa. O que é relevante é a mentalidade e a cultura do país que levou Pinto de Sousa (e muitos outros) a acabar a sua licenciatura a contra-relógio para se manter a flutuar na política ou a intitular-se de algo que não são. É que nos dias que correm, quem quiser ter uma carreira política (excepto para o poiso de cacique local) necessita do canudo.
Infelizmente em Portugal continua-se a viver com o estigma do "Dr.". É a tacanhez de espírito, da primeira geração com uma percentagem elevada de diplomados que levou à criação desse grande mito do "Dr.". Em Portugal, ou és "Dr.", ou não és nada. Sendo certo que o grau académico correcto seria "Licenciado". Mas licenciado é feio. Nada como criar e manter o mito (sim, porque de mito se trata, sem substância histórica) do Dr.. Pena é que o grau de Dr. não exista enquanto verdadeiro grau académico. É apenas um costume. Existe o Doutor, naturalmente, mas esse ou é médico ou é doutorado.
Como nos países que aproveitam um boom económico e vivem como novos-ricos (exemplo: Irlanda), em Portugal as pessoas promovem-se à custa do título académico. Como disse, a geração do Sr. Pinto de Sousa é a primeira geração com uma boa percentagem de diplomados. E é uma vergonha para os não-diplomados viver com esse "estigma".
Cortesia da política do Estado Novo em deixar o povo instruído no limiar do analfabetismo.
Da mesma forma que na Irlanda o standard de comparação é o tamanho da casa ou do carro (e o que se torra em ambos), em Portugal, pobres como somos em diplomados, a distinção é feita entre os Drs. e os "outros". Como no Lost, the Others.
Vejamos um exemplo prático. Falamos ao telefone ou enviamos um email pela primeira vez a alguém. Por via das dúvidas colocamos sempre o Dr. antes do nome, não vá o diabo tecê-las e criarmos um "incidente".
Ou seja, somos uns novos-ricos do canudo.
