Espaço de crítica tendencialmente destrutiva

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Grandes Portugueses II

Ontem e na semana passada passaram na televisão os programas dedicados a Álvaro Cunhal e António Oliveira Salazar. A realização dos mesmos estava a cargo dos "ilustres defensores", permitindo assim o útil exercício de penetrar um pouco na psique de cada um dos mandatários.

Por ordem cronológica, programa de Cunhal foi um exercício clássico de propaganda comunista, o não tivesse sido realizado por Odete Santos. Justificando, o percurso da vida de Cunhal era dado sempre como contraponto de luta contra o regime do Estado Novo. Cunhal preso, Cunhal contestatário, Cunhal o erudito e intelectual na prisão. A história da vida do mesmo para a "defensora" gravitava nos seguintes eixos, primeiro, a experiência de resistência e a dureza do regime, segundo o dissidente que andou pela Europa, expatriado, e gabando os paraísos socialistas na terra, Terceiro Cunhal na revolução e semi-domesticado (pois um leopardo não muda as suas pintas) em democracia com uma boa dose de branqueamento e quarto, o Cunhal humano, pai de família, voltando ao primeiro e a árdua experiência.

Como é típico no folclore comunista a dado ponto o homem e o partido são a mesma coisa, com ascendente do primeiro sobre o segundo. Mais ainda e obedecendo aos bons canones da propaganda marxista a represssão salazarista era do mais duro possível, destacando torturas inumanas como a do sono, a cadeira ou outras. O fascínio comunista pela tortura e repressão é algo explicável somente pela natureza pérfida da ideologia, uma vez que no poder os meios repressivos são sempre branqueados em nome de maiores ideiais como a construção de uma sociedade comunista ou outras. Enfim uma cínica e clínica ligação entre a repressão violenta dos regimes que precedem os comunistas e depois a actuação dos mesmos, pois quando mais negro for o fascismo e mais escura a noite, mais mítico e lendário é o papel dos comunistas. As celas de Peniche e a PIDE, são os mais tenebrosos de sempre, obvio que a memória histórica, uma vez raspada a crosta, esconde um jogo de cumplicidades com a polícia política, lutas internas e glorificação de acções como a distribuição de folhetos ou a leitura do Avante...

O percurso de Cunhal sem o Estado novo não vale nada, a sua legitimidade advém de façanhas exponenciadas pelo culto "misticista" comunista, alias noutros processos latente como foi o culto de Lenine, Estaline e outros. Cunhal, defensor do marxismo leninismo, Cunhal nos partidos comunistas do Bloco de Leste, Cunhal filho de uma ideologia gloriosa, de um sol vermelho e defensor, só mesmo de gozo, de um pluralismo democrático, que sinal dos tempos sempre renegou e nunca apreciou salvo para se apropriar enquanto valor histórico. Infelizmente os portugueses são pouco lúcidos e logo propensos a comerem de "anzol histórias de mitos".

Em suma o exercicío da Camarada Odete é uma montagem clássica de propaganda vermelha, de regime, com um culto personalista no qual os eventos históricos são manipulados conforme as tendências do momento, alias como se vê na pueril interpretação do Pacto entre a URSS de Estaline e a Alemanha Nazi, que curiosamente não é referido na súmula de eventos escolhida. Em bom rigor não há qualquer rigor e a história apud Odete não nada mais que a ostra na qual a pérola de nome Cunhal se esconde... Nada de novo, não se vê nenhuma lucidez, eventos como o muro de Berlim são esquecidos, enfim, deserdados do mito...

O exercício de Jaime Nogueira Pinto(ontem) de Salazar é bem mais interessante, até porque o sujeito se presta a isso, alias ambos. Primeiro sobre o defensor este é desalinhado, nunca fez carreira em política, pelo contrário, fez vida como autor de uma série de livros e produções intelectuais críticas ou pelo menos lúcidas, conseguindo pronunciar a palavra "Muro de Berlim", sem qualquer murmúrio ou início de trombose.

Foi portanto um programa bem mais equilibrado, expondo Salazar na sua maneira mais crua, a de Patriota, à sua maneira, para bem e mal dos nossos pecados. Salazar na cena internacional, pontuou a sua actuação pela soberania nacional e defesa da integridade nacional, salvaguardando-se e jogando q.b. com a Alemanha Nazi, não por deleite ideológico ou gaúdio, mas sim na defesa do que julgava ser os melhores interesses nacionais. Se na II guerra mundial o estadista foi irrepreensivel, já na Guerra civil espanhola o fantasma da união ibérica foi agitado, é óbvio, embora não concordando inteiramente com a escolha é Nogueira Pinto hábil, pois não sendo os portugueses lúcidos, não esquecem mitos, como este ainda muito poderoso. Note-se portanto a subtileza nas diferentes linhas, Odete joga na ignorância para glorificar Cunhal, Jaime joga no mito para expor a razão de estado de salazar que, sendo rigoroso também o fez por ser a única possibilidade de salvação do regime. Curiosa diferença não?

Nogueira Pinto, habilmente, montou um programa interessante, passou de seguida para as modestas matrizes de Salazar, a casinha de Santa Comba Dão, o pobre estudante, sempre pobre, sempre modesto, um outro culto personalista pois claro, o da modéstia e humildade, a matriz sendo cristã conhece com Salazar manifestações interessantes como o apego à Mãe, á Santa Madre Igreja etc.. Não se coibe contudo Nogueira Pinto de falar da PIDE e do seu papel na psique de Oliveira Salazar, e menos ainda de explicar que o "crack" na armadura se dá precisamente nos anos 50, com o início da descolonização europeia. Salazar contudo resistente enfrentou os ventos de mudança histórica, e especialmente morreu convicto que sua missão havia sido bem realizada, Portugal em 1970, sendo diferente do de 1933 era o mesmo territorialmente.

A psique de Salazar é ilustrada pelo seu percurso de vida e como este se reflete na sua actuação política, afinal de contas o Professor era um homem rural, defensor da sua terrinha, mas também conhecedor de um Portugal do interior e periférico buliço de Lisboa com os pseudo intelectuais parecidos com os de hoje. Mais ainda o percurso de Oliveira Salazar até ao poder é precedido por um inaudito e quase permanente percurso de agitação desde 1908 até 1926, não sendo por acaso que intelectuais e homens de valor se tenham em 1926 pronunciado pela ditadura militar como única medida de salubridade contra os políticos da República. Salazar foi marcado por tudo isto, daí também o apego ao sossego que Nogeira Pinto faz de forma interessante através de episódios da vida privada do mesmo, fundidos sempre com as suas origens.

Lúcido todavia, é também critíco com o seu "cliente" mostrando-o como um homem que ultrapassou o seu prazo histórico, mas que esteve na devida hora à altura dos eventos como o demonstram duas sérias ameaças históricas à integridade territorial portuguesa como o foram a guerra civil espanhola e a II Guerra Mundial.

Ficando variadíssimos assuntos e afloramentos, ficam sempre alguns temas de reflexão e a forma como os intervenientes jogam com os nossos medos, receios e também aspirações e ideias de um passado recente.