Espaço de crítica tendencialmente destrutiva

terça-feira, novembro 21, 2006

Continuar a educar para comprar?

Substituido recentemente por leituras mais lúdicas, a obra "Iron Kingdom"Christopher foi das leituras mais interessantes que realizei. Em 687 páginas o autor conta-nos a história da dos Hollenzollern, desde os seu início, em 1415 como família menor no rico mosaico de principados germânicos, passando por crises e momentos de grande desenvolvimento. A compreensão da história deste Reino, desde 1713 chamado de Prússia é fundamental para entender o processo de formação da Alemanha, mas também de parte da sua psique colectiva, e mais importante de 500 anos de balanço de poderes na Europa Central.

Essencial para esta percepção estratégica, que perdurou desde 1648, ano em que o Reino foi quase destruído por hordas de invasores de diversos paises, com especial destaque para os Suecos, Austriacos (na altura sem este nome) e outros é essencial. 1648 com a paz de Westfalia significou quase em simultaneo o início do reinado do Grande Eleitor, ora a história que se segue e conhece o seu ponto alto na fundação do Império em 1871, e o seu reconhecimento como potencia de primeira linha no continente europeu suplantando a França e ombreando com a poderosa Russia, é longa, sangrenta e forjada em sangue, valerosas famílias militares e aristocráticas cujos apelidos curiosamente são repetidos longamente por centenas de anos de história, até 1945, na maior parte das vezes com respeito à mais integra e valerosa tradição militar.

Esta imagem é já conhecida e amplamente vista, a Prússia, potência militarista e agressiva com intenções territoriais agressivas, sem dúvida que tais factos são em parte verdadeiros, mas também se conhece a Prussia e Brandenburgo antes como terra de filósofos, de intelectuais, de artistas, pensadores políticos e homens de diversas artes. Curiosamente durante o reinado de Frederico o Grande e no de Frederico Guilherme II, a Prússia granjeava uma reputação europeia de erudição e liberdade de pensamento, suplantando a livre Inglaterra e a França, mesmo sendo uma monarquia do Antigo Regime.

Não sendo o nosso desiderato resumir mais de 500 anos de riquíssma história chamamos a atenção ao bom leitor, que provavelmente ao momento responderá com um bocejo ao interessante facto de desde a primeira década de 1700 a escolaridade mínima ser obrigatória em todo o reino para toda a população, excepto os servos cujo estatuto terminou somente no século XIX. Curioso paradoxo sem dúvida... Contudo as taxas de literacia foram desde então das mais altas do mundo, daí ao surgimento de classes literadas, consumidoras de cultura, de debates e da criação de um substrato cívico foi um instante, a par disso foi lançado desde pelo menos o reinada de Frederico Guilherme I um sistema de recrutamento de diversos súbditos, sistema que depois da débacle de 1810, na qual o reino sucumbiu à ocupação Napoleónica e ao temido jogo entre as potências da europeias cimeiras, foi o espartilho para a fundação da Alemanha sob auspícios de Berlim.

Curioso, entre outros é a questão da literacia, sempre uma preocupção de sucessivos monarcas e demais entidades administrativas, sendo este um dos suportes de criação de uma forte burocracia, organizada e eficiente, á medida da época.

Aportando este paradigma aos nossos tempos, somos forçados a reconhecer que em Portugal, quanto maior for a prosápia e a retórica do discurso mais se destapa a careca do facto da ileteracia fazer parte do DNA da nossa história. Vejamos pois que a escolaridade mínima foi tornada obrigatória desde o início do século XX ( quase 300 anos depois) e só implantada seriamente desde a sua segunda metade. Verdade seja dita a convergência verifica-se, as taxas de literacia são as mesmas que os remanescentes povos europeus, contudo importa distinguir da literacia o colher dos benefícios a esta relacionados, ou seja a erudição da população, a aprendizagem, a transmissão de valores sociais e de verdadeira abertura mental e liberdade de pensamento que hoje em dia verdade seja dita não conhece ainda o país.

O discurso da qualificação profissional é importante, mas também o de cultura, uma verdadeira cultura de massas no bom sentido, que partilhe um substrato comum cultural e uma verdadeira afinidade de civilização portuguesa, de perenidade e evolução. Ora precisamente o que denotamos é o contrário, somos literados q.b.,é possível aceder à cultura e a outros bens, contudo em vez de apostar nestes, na formação das crianças, numa erudita educação, clássica q.b., com conhecimento de artes, ciência, literatura e cultura persistimos em modelos desadequados à nossa realidade. Um esforço colectivo deve começar nas famílias, quais são os pais que educam verdadeiramente os seus filhos, que se preocupam com uma educação séria, viva e completa, muito poucos. Contudo os mesmos que vituperam o estado, professores e seja lá quem mais for são os mesmos que investem e se endividam bem acima do seu rendimento em bens de consumo, cedendo à tentação de educar os filhos de fronte à televisão e à escola que mais não faz que espelhar as crescentes desigualdades sociais.

Continuando, o falhanço educacional português, latente desde a atitude profissional, ao comportamento na estrada, ao acesso a serviços públicos, ao serviço da res comum é atrasado para não dizer primata.

Tendo adquirido uma benvinda prosperidade, a classe média preferia ter um culto de mediocridade ou de simples inveja pelas suas próprias frustrações, verdade seja dita que desde pelo menos há 30 anos subiu de pleno poder incontestado ao controlo dos desíngnios nacionais, contudo com o voto, ou a participação em sociedade não adquiriu um sentimento colectivo de erudição e levantamento de expectativas, pelo contrário, descarrega no estado e em bens de consumo o tempo e rendimentos que devia dispender num culto de exigÊcnia próprio com as ambições do país e em investimento em bens colectivos.

Voltando à comparação que os próprios dirigentes políticos fazem com a Europa é aí que falhamos, na atitude cultural, na erudição e no sentimento colectivo, optando pelo fácil, o barbarismo de agitar umas bandeirolas por ocasião desportiva, ao mesmo tempo que terminadaa festa se deixam as ruas sujas, não é solução, pelo contrário é prova de retrocesso de um povo emocionalmente imaturo. A literacia não é formar centenas de milhar de jovens em más universidades ou liceus de terceira categoria, mas sim criar mentalidades livres e cientes do que é a sociedade,a vivência e valores comunitários. Educar para comprar parece ser o luso apanágio que há muito deveriamos alterar.