Eleições nos EUA
Para tal tem contribuído a sequência longa de más notícias para os Republicanos: a guerra no Iraque, os pecadilhos sexuais de elementos chave e a consequente desmotivação do seu eleitorado tradicional.
Neste segundo mandato Bush apostou em governar centrado essencialmente à direita, ao contrário da opção de Bill Clinton no final dos anos 90. Controlando ambas as câmaras do Congresso com mão de ferro, optou por não fazer quaisquer concessões ao Partido Democrata ou ao centro. As coisas correram-lhe bem até as más notícias no Iraque se avolumarem. Três anos e meio depois do seu discurso de vitória num porta-aviões ("Mission Accomplished", lembram-se) o objectivo está tudo menos conseguido: violência sectária, democracia disfuncional e uma incapacidade de as forças americanas conseguirem corrigir os erros cometidos no início da ocupação. Sobre estas mudanças, como dizem os bifes "to little, to late".
A situação é tão grave que o próprio Bush admitiu recentemente numa entrevista que a situação no Iraque poderá ser considerada semelhante à ofensiva do Tet em 1968-69. Para quem deu a guerra como ganha, é uma grande mudança. Não lhe fica mal a humildade de finalmente, ao fim de três anos a fazer orelhas moucas ao óbvio, isto é, inexistência de armas de destruição maciça, inutilidade na destituição de Saddam e a previsível implosão do Iraque (que o seu pai, sabiamente, evitou em 1991).
A chatice de haver eleições a meio do mandato tem destas coisas, obriga os políticos a não poderem descurar a sua defesa. Bush fez o possível nesta campanha, mas as coisas não lhe têm saído bem. Há até senadores e representantes republicanos com o lugar em risco que preferem a ausência do Presidente nas suas campanhas. Longe vão os tempos das eleições intercalares de 2002, em que a popularidade de Bush serviu de muleta em muitos comícios.
Depois há aqueles azares que aparecem quando tudo corre mal. É que num eleitorado tão conservador e polarizado como o republicano hoje em dia, a moral é um elemento essencial aos políticos associados a este espectro político. A demissão do hipócrita pedófilo Mark Foley (que ironicamente se bateu pelo reforço da perseguição a abusadores de menores) e da estrela evangélica Ted Haggard causou profunda mossa no grosso do eleitorado republicano. É o preço a pagar quando se a política e a moral religiosa andam de mãos dadas. Também com as suas aventuras sexuais e perjúrio, Clinton salvou-se de idêntico descalabro ao assentar a sua base de apoio num eleitorado totalmente distinto.
Assim, do lado republicano temos um baixar de braços que há anos não se via.
Já no partido do burro a moral está em alta. Depois de sucessivas derrotas e anos a ver os comboios passar, as tropas acreditam na vitória. Cheira a poder. E quando cheira a poder as massas agitam-se e os potenciais beneficiários salivam como cães de Pavlov.
Os democratas finalmente conseguiram alinhar posiçõs no que toca à guerra no Iraque. Têm a sorte de as coisas estarem a correr mal e (ao contrário de 2004) ser politicamente correcto bater no ceguinho do erro da invasão.
Têm também a nova bandeira do aquecimento global que irá ser aproveitada pela esquerda moderada nos próximos anos, seja nos EUA, seja no Reino Unido, como provaram o filme de Al Gore e o Relatório Stern divulgado esta semana.
Por outro lado, também têm estado ausentes da campanha democrata os erros que lhes custaram caro no passado, tirando a recente e habitual gaffe de John Kerry. Este, uma vez mais, não conseguiu evitar um comentário infeliz que lhe saiu caro.
Deste modo penso que as eleições de Terça-Feira irão assinalar um momento de viragem na política americana, com uma ou duas vitórias dos democratas.
A confirmarem-se, os dois anos finais do mandato de Bush serão complicados para a Casa Branca.
