Passeata em Montserrat
O dia estava soberbo e a viagem até ao mosteiro decorreu sem incidentes. Carro até ao sopé da montanha e cremalheira (transporte colectivo semelhante a um eléctrico rápido preparado para subidas íngremes, que se existisse no Porto certamente teria o distinto nome de metro) até ao Mosteiro. Quem quiser pode optar pelo teleférico ou pelo carro, pagando uma simpática portagem para entrar na zona do Mosteiro, sem direito a lugar de estacionamento. Os catalães maldosos chamam-lhe montanha mágica...de fazer dinheiro.
Lá em cima, o panorama era semelhante ao de qualquer local de peregrinação. Gente, gente e mais gente. Por momentos pensei que estava em Fátima. Mas feitas as comparações, as diferenças entre os dois santuários pendem para o lado de Montserrat. Vejamos,
1. Espaço:
Embora em Montserrat todo o espaço seja precioso (estamos quase no topo da montanha), o espaço está bem arranjado. Muito bem arranjado mesmo. O cremalheira e os funiculares (já lá vamos) são novos. Em Fátima a zona do santuário também está arranjada. Mas está arranjada de uma forma diferente. A basílica então (Séc. XVIII a XX) é imperdível. Merece bem a visita.
No nosso santuário privilegia-se o espaço aberto e a zona de estacionamento de autocarros de excursões de Boticas, Ferreira do Alentejo, Vila Nova de Cerveira ou qualquer aldeola do interior munida de autocarro na sua freguesia. Em Montserrat não se pretende isso, porque, simplesmente, não tem espaço. Então trocaram a quantidade pela qualidade. Montserrat 1-0. Também compreendo que se em Fátima não tivessem optado por esse caminho, teria sido um fim do mundo.
2. Envolvência (vistas)
Não há comparação possível. A vista do Mosteiro e a vista do topo da montanha são, simplesmente, impressionantes. Um passeio à ermida de San Joan (lá no topo, depois de apanhar um funicular) comprova-o. Volto a frisar que tivemos muita sorte com o dia. Para quem gosta de um dia longe da cidade e uma alegre passeata no cume de uma montanha, não há melhor. Regressa-se a casa com um outro ar. Para mim, foi a melhor parte do dia. Montserrat 2-0.
3. Frequência (de pessoas)
Perdoem-me os corações mais católicos, mas sempre me impressionou (negativamente) o tipo de devotos que frequenta Fátima. Com todo o respeito por eles, mas sempre me fez confusão. Em Montserrat também os há, mas mais diluídos no conjunto de pessoas heterogéneo que frequenta a zona. É que aqui não vão só católicos devotos, mas também pessoas que querem simplesmente conhecer e desfrutar do Mosteiro ou da montanha. Por exemplo, para ver a imagem da Virgem (e beijá-la) é possível encontrar todo o tipo de gente na fila. Quanto mais não seja, para verem as magníficas obras de arte que há no corredor da Basílica que leva à imagem. Montserrat 3-0.
4. Consumismo
Aqui as coisas equilibram-se. Em Montserrat não há o comércio de dezenas abutres circundantes como em Fátima, dispostos a rapidamente esvaziar o bolso de um qualquer peregrino incauto que lhes caia nas redes. Tudo em nome da religião. Mas há o mesmo consumismo desenfreado de imagens da Virgem em tudo o que seja merchandising passível de permitir sacar uns cobres ao visitante. Tudo o que possa levar um carimbo a dizer "mosteiro", "montserrat" ou um ícone da Virgem, arrisca-se a estar à venda em Montserrat. A sofisticação é tanta, inclusivé, que há que tirar senha. Fez-me lembrar a cafetaria do Jumbo em Cascais quando era míudo. Mas pelo menos tudo isto é feito numa ou duas lojas com boa pinta, as quais assemelham-se mais às de museu que de santuário.
A palma de ouro para o engenho capitalista de Montserrat vai para uma (brilhante!) pequena representação da Virgem que brilha no escuro. Que sentido de humor...uma Virgem Negra que brilha no escuro. Ou melhor, brilham as suas vestes, pois a cara é, obviamente, negra. Estive quase para a comprar e oferecer a uma das minhas avós. Duvido que tivesse sentido de humor para aceitar a piada.
Enfim, empate entre ambos os santuários.
5. Preços
Aqui em Espanha os preços não são pera doce, e Montserrat demonstra isso mesmo. Ponto para Fátima onde não se paga portagem para chegar perto. 3-1 no total.
Resumo final: um dia bem passado fora da cidade e que saiu mais caro que o previsto.

Mas quem é que vai a um local de culto para reparar nos aspectos referidos nos pontos 1. a 4., com especial relevo para os pontos 3. e 4.!!??!!
Houvesse um berbequim que te entrasse pelo rego...
Cumprimentos,
Buda
1:00 p.m.
Que romântico, pt.
Título do post: romarias de mão dada com um marinheiro que aprendi a amar.
Cheira-me que precisas é de uma bela chapada nesses cornos, que ninguém está interessado numa nova versão do diário de Adrian Mole.
É uma pena para este santo blog contar com a opinião do novo José Castelo Branco.
Que eu não te leia mais por estas bandas.
Cumprimentos de Ramires.
3:48 p.m.