Faralho a oriente?
Os que alimentam que o teste de Piong Yang foi o reconhecer do falhanço da política norte americana para a região, aproveitando mais um desvario da administração Bush, aliado ao já costumeiro ror de barbaridades gratuitas são numa palavra "ceguetas". Os horizontes estratégicos e as políticas ultrapassam qualquer administração americana ou de outro pais com lideres eleitos democraticamente.
Os que tem a vista curta em termos estratégicos não vem a 10, 15 ou mais anos, cegos no seu anti americanismo, buscam culpar alguem pelos males do mundo, sem sequer o entender. A geo estrategia da Península da Coreia gira em torno de premissas muito complexas e elaboradas, contudo com o teste nuclear e a assumpção de capacidades nucleares pelo regime de Kim, altera a frágil equação que garantiu a paz na zona. Esquecem os menos sabidos que a Coreia foi sempre disputada entre as duas potências da zona, especialmente durante o´final do século XIX até 1950, a China e o Japão. A reemergência do Império do Meio, até então única potência nuclear na zona, causou também pressão sobre a Coreia do Norte, a solução multilateral americana serve de tentativa e de ponte para um entendimento entre o Japão e a China, lançando bases para uma maior coesão regional, evitando o já de si ténue equilíbrio de forças na área, evitando a criação de pontos de fricção demasiadamente vincados que numa situação e confronto, aliados a um passado histórico comum incómodo exacerbem as tensões na área.
O multilateralismo na Coreia é uma ponte e devia ter sido visto como uma forma de regionalmente criar mecanismos de poder que sejam alternativos a um envolvimento norte americano em zona de pouco interesse estratégico (Coreia), um envolvimento unilateral neste caso serve somente para catalizar a erosão dos EUA, colocando numa posição incómoda entre os interesses do seu principal aliado na região e o Império do Meio.
O falhanço na contenção da Coreia, mais que para os EUA, representa para a China uma incapacidade de conter o seu vizinho, com o qual goza de afinidades ideologicas e não só. Embora os orientais desenvolvam o seu pensamento em matrizes culturais diferentes, ter um vizinho pequeno armado de um dissuassor nuclear implicará por Pequim uma relação mais cuidada com Kim e sua demencial camarilha.
Porque é que a não proliferação na Coreia estaria destinada ao falhanço? Por diversos motivos, primeiro as alterações por baixo da pele do império Chinês, o crescimento económico e as reformas sociais que a longo ou médio prazo se introduziram levaram o comunismo híbrido chinês a um ponto de ruptura. O novo papel da China enquanto potência regional leva a que os desiquilibrios na Coreia não sejam vistos com o mesmo interesse que anteriormente, o velho axioma da guerra fria que cada lado tinha a sua Coreia altera-se, relações comerciais entre Seoul e Pequim, investimento, comércio e globalização, não sendo necessariamente elementos que conduzam à paz, evitam a guerra e tornam a China menos amiga de investidas em nome de solidariedade de outros tempos. Continuando, na psique dos dirigentes de Piong Yang formou-se certamente a convicção de que estão sozinhos, a China joga paralelamente noutros planos, e rodeados de vizinhos que não entendem o retrocesso planos de um regime visto como hostil e semi humano, levam a que Kim se tenha de por em bicos de pés e agitar o cutelo nuclear, mesmo que o o braço que o enverga seja desnutrido.
Numa posição nuclear a Coreia do Norte esta em posição de ser respeitada de outra forma, mesmo que pobre e faminta. Em termos de relações entre os Estados as coisas jogam-se desta forma. O já previsivel falhanço da não proliferação nuclear na Coreia serve de incentivo a paises como o Irão e outros a endurecer as suas posições contra as tragicomedias nucleares, com o tira e mete inspectores, os golpes de palco na ONU ou na Agencia Nuclear da ONU etc... Entrar numa logica de que quem tem a bomba merece respeito e pela comunidade internacional ver tal como um incentivo à proliferação e ao alastrar a estados crescentemente instáveis e hostis, numa corrida ao nuclear.
Colocando a questão, usará a Coreia do Norte o seu arsenal atómico quando a sua liderença se sentir ameaçada? Do demencial Kim e sua pandilha é de esperar o pior, levando assim a que o axioma se concretize, ou seja o relacionamento com a Coreia entrou noutro patamar, ou como dizem os jogadores "the stakes just got higher". A Península da Coreia e boa parte do Extremo Oriente ficou um jogo de poker com menos espaço de manobra, menos espaço de bluffs e especialmente mais risco para os estados e povos da zona.
Umas palavras sobre o Japão, rogo ao bom leitor que me premiou com alguns minutos de sua atenção que entenda que é uma civilização que me fascina e muito me agrada, enfermando assim por esta limitação, o Japão, por obra e graça da II Guerra encontrou-se durante 50 anos num limbo estratégico, a um forte cometimento com a paz e segurança correspondeu uma política de investimento em defesa das ilhas japonesas, a par de uma não ingerência fruto de limitações várias correspondente ao seu peso. Mais tarde ou mais cedo irá o Japão alterar a sua política na zona, envolvendo, ao contrário da vontade de Washington um esforço de reforço de capacidades militares e menos interessante, em termos nucleares, ninguem duvida que o Japão tem sem qualquer esforço capacidades tecnológicas e de recursos em desenvolver instrumentos nucleares, a política interna japonesa conheceu recentemente um desenlace de vulto, a eleição de Shinzo Abe, político com diferentes ideias do papel do Japão, com vontade de colocar o seu pais numa posição mais clássica de potência da zona, ombreando com a China,Rússia e com ensejo de colocar o perigoso e incomodo vizinho norte coreano com dono.
Ao contrário do que muito se diz para aí, as consequências não são somente regionais mas com repercussões a toda a linha, como afloramos levemente nestas longas e penosas para o bom leitor linhas.
