As mulheres de César
Confesso que adoro políticos que fazem a sua carreira assente na defesa da moral, legalidade, bons costumes e afins. São os mais fáceis de apanhar em contradição, a mentir, ou com a careca de fora. É interessante ver a agonia pública destes filhos pródigos.
Vejamos Wolfowitz. Aumentou a namorada quando entrou para o Banco Mundial e enviou-a para o State Department. Alegadamente o aumento ter-se-á ficado a dever à "chatice" que isso tinha provocado na carreira da sua dama. Primeiro problema, envolveu-se directamente no caso e afastou o Director de Recursos Humanos e o Vice-Presidente para a área legal do assunto. Segundo problema, aumentou-a tanto que toda a gente no Banco Mundial ficou a morrer de inveja. Terceiro, aumentou a babe para valores superiores aos da própria Condoleezza Rice. Quarto, tentou tapar o sol com a peneira. Quinto, quando a notícia estalou teve a pior atitude possível: agarrou-se ao lugar e tentou atirar as culpas para cima de terceiros.
Resultado sai pela porta pequena, depois de um relatório de investigação demolidor e prestes a sofrer uma moção de censura do conselho de governadores. Com isto, arrastou para a lama o nome do Banco Mundial e mostrou que por muita retórica que se professe de querer acabar com a corrupção no Terceiro Mundo e nos projectos financiados pelo BM, na realidade, esses princípios não são para levar a diante quando o assunto lhe toca directamente.
Liquidou a sua carreira como chefe do BM por 60 mil dólares. Caso tivesse conquistado a simpatia e respeito dos seus subordinados - ao invés de se rodear dos habituais cães-de-fila trazidos da administração Bush - e mostrado alguma competência, provavelmente isto teria passado despercebido.
Assim, quando o apanharam na curva pessoas e países com interesses e agendas próprios, não hesitaram em deixá-lo arder em lume brando. As suas atitudes posteriores ajudaram.
Mas há mais uma mulher de César, desta feita no nosso burgo. O paladino dos bons costumes, da moral, da legalidade, dos inválidos, dos Estudos de Impacte Ambiental e do departamento jurídico de uma empresa pública municipal, também foi apanhado nas curvas da vida.
Descobriu-se agora que o gabinete de Sá Fernandes, Paladino-Mor do Reino, tinha 9 assessores. 9. Nove. Nove badamecos a trabalhar para um vereador SEM PELOUROS. Ou seja, que graças à estupidez da Lei das Autarquias Locais, não faz nenhum trabalho em prol da cidade. 0, nickles.
E a defesa do Paladino Fernandes é magnífica: Carmona e Fontão de Carvalho ter-lhe-ão dito que podia ter 6 assessores. Como dos 9 apenas 3 estão a tempo inteiro, feitas as contas é como se tivesse só 6. Parece o milagre da multiplicação do pão. Not so fast. É irrelevante o estatuto de tempo inteiro ou tempo parcial.
Por um lado, ninguém lhe disse que poderia ter até 12 assessores desde que estivessem todos a tempo parcial.
Por outro lado, é tão lógica a falácia como a história do desdobramento das viagens dos deputados (lembram-se? Levavam a família e iam todos em turística, pelo preço da viagem simples do deputado em primeira, não há aumento de custos, logo pode-se fazer).
É tão lógico tão lógico que o próprio Paladino Fernandes não se lembrou de um pormenor: se pode desdobrar assessores, então também pode desdobrar vereadores. Já que não tem pelouros, é considerado vereador a meio tempo, então o 2o da lista do BE deveria ter o direito de ser também vereador a meio tempo! Lógica da batata mais simples, não há.
Ademais, ainda vem dizer que foram as indicações que teve. Mas alguém lhe disse que ele não podia ter MENOS assessores? Foi impedido?
E pergunto eu: O que fazem 9 assessores de um vereador SEM PELOUROS? Recordo que (felizmente) o Paladino Fernandes não tinha qualquer competência na gestão da cidade. Nada. Zero. Rien de rien.
Então as 9 alminhas assessoram-no em quê? A farejar tudo o que é buraco para plantar notícias nos jornais?
E por fim, "la piéce de resistance":
"Como “tem que haver critérios para a contratação de assessores”, segundo Carlos Marques, o BE defende que cada partido tenha cinco assessores (economista, jurista, urbanista, coordenador e comunicação), acrescido de mais um assessor por vereador a mais, para haver proporcionalidade face ao volume de trabalho. Sá Fernandes vai defender amanhã a “moralização” da autarquia nesta área."
Como quem diz "agora que fui apanhado com a mão no pote das bolachas, ainda vou dar uma de senhor mãos-limpas e pedir a moralização da história dos assessores."
Não esteve dois anos a aproveitar-se da "falta de moralidade"? Então com que lata vem agora pedir mudanças?!
