Sintomas da “Albanização de um Pais”
O sentimento de decadência prolongado sentido em Portugal hoje não é de todo infundado. Ao optimismo continuado dos 90 com os seus erros, vêm a década seguinte, por diversos motivos, nacionais e internacionais aplicar o correspectivo correctivo. Se o zénite dos anos 90 se atingiu com a Expo 98, obra de dois regimes, o Cavaquista e o Guterrista, a partir de 2000 veio uma dura ressaca. De entre os motivos do “boom” contam-se especialmente a partir de ’96-’97 os juros a baixa cotação que permitiram a muitos o acesso a bens de consumo que em décadas ou mesmo em anos anteriores seriam completamente impensáveis. Habitação própria, melhoria no parque automóvel, quantitativa e qualitativa, crédito ao consumo, viagens e crédito mesmo de sobrevivência…
Seja como for o pais definha, não apenas por motivos deste ou daquele governo mas antes por um estado de coisas que ninguém quer assumir, escolhendo por anos sucessivos vender ilusões ao povo, choques fiscais ou tecnológicos, modernização, acessibilidades, grandes obras públicas, tudo para todos com poucos a pagar e muitos a gozar o prato. Exemplos emblemáticos escolho dois, primeiro as SCUT’s que nos longínquos idos de 96 ou 97 já se sabia serem insustentáveis a longo prazo, hoje com encargos de manutenção e contratos com concessionárias que, fruto de incúria ou mesmo de conduta dolosa são prejudiciais ao interesse público. Sempre o foram e as oposições sempre o disseram, contudo uma vez governo a renegociação não será de todo uma prioridade, antes pelo contrario é varrida prudentemente para debaixo da mesa de onde nunca deveria ter saído. Outro exemplo emblemático foi a promessa e Guterres, “o homem das paixões”, foi a promessa realizada em 1999 referente à não subida até ao final do ano(de eleições) do imposto sobre os produtos petrolíferos, que não se veio a verificar, sendo contudo, logo desde Janeiro de 2000 agravado e de sobremaneira o preço de maneira a compensar os prejuízos entretanto sofridos.
Dois exemplos caricatos que ilustram somente que as promessas e os choques têm todos custos inerentes, tal como as borlas em portagens ou outras benesses análogas. O português, de vista demasiadamente curta e fruto de um sistema fiscal iníquo acha melhor não pagar, mesmo que a factura venha e de que maneira encapotada em impostos. Não vale a pena questionar a curta vista dos nativos pois se esta é assim é também porque está entranhada profundamente na psique nacional de que o estado muitas vezes o que dá com uma mão tira com a outra e com o pé e os dentes e portanto qualquer vitória ou curto adiamento é já ganhar, e impostos…que pague o próximo ou os ricos pois quando chega a hora de contribuir são todos remediados. Eu não me excluo também leia-se.
O reverso da mentalidade é quando somos sujeitos ao aperto resignamo-nos e continuamos, sofrendo a vexatória tributação, a par de suspirar-mos que foi bom enquanto durou…
Mergulhando em sintomas de “albanização” de um pais, sublinho alguns:
(i) enorme emigração de mão de obra qualificada
Pergunto ao caro leitor quantas pessoas conhece que trabalhem fora de Portugal, quantas não aguardam essa oportunidade e quantas têm qualificações e valor? Pois bastantes mesmo!
(ii) descida reiterada e prolongada na qualidade de vida
(iii) divergência com os padrões europeus e empobrecimento gradual
(iv) aumento de carga fiscal, a par de ineficiência crescente do estado
(v) má qualidade de serviços generalizada
(vi) salários baixos
(vii) péssimo sistema escolar público
(viii) crescente fosso de confiança entre eleitos e eleitores
ao ponto viii lanço como exemplo a situação na câmara de Lisboa que não alimenta qualquer emoção ou candidatos à seria, com programas sobre o joelho. Dirão as eleições são intercalares, contudo a dispersão de candidatos e de votos nas primeiras sondagens são sintomáticas de que as pessoas tem cada vez mais dificuldades em escolher em quem votam. Ou como diria alguém há tempos: «em Portugal está cada vez mais difícil saber em quem votar.
(ix) Clima de atrofia intelectual e social
(x) Sentimento de crise continuada, período de estagnação económica
Bem dirá o caro leitor que são alguns sintomas de natureza meramente subjectiva e que raras vezes escreveu este autor de outra forma. É um ponto, contudo o sentimento de que o pais marca passo em relação à Europa, aliado a um crescente mal estar têm acima muitas causas, agravadas pelo facto de que a comunidade politicamente organizada que é o pais falhar enquanto organização.
Definhamos pois é uma certeza, definhamos entre polémicas judiciais, “casos” e atola-se o pais num pântano clássico entre uma esquerda e direita cujos argumentos estão completamente viciados, as receitas e remédios velhos, os actores com casacos coçados e linhas gastas e o tão típico sentimento nacional de que nada é responsabilidade de ninguém pois alguém virá depois e alguém já veio ontem.
É pois um facto, hoje na Europa o pais definha e agonia lentamente. Soluções aceitam-se…Eu proponho três, um verdadeiro espírito crítico em Portugal que não resvale entre o “treinador de bancada” e o “velho do Restelo”. Um ímpeto de mudar sereno, e não choques ou iniciativas ou mezinhas miraculosas que tiram a uns para alimentar classes políticas ou pior ainda para alimentar cliques de funcionários tão inúteis pela sua incompetente actuação se provam úteis. E por fim um realismo saudável que veja Portugal como o pais que é pobre e pequeno mas com potencialidade pois só com os pés na terra se podem fazer mudanças estruturantes a longo prazo que conduzam a uma melhoria de condições de vida generalizada. E já agora, socialismo não para a gaveta mas sim para a latrina.
