Ha AVEs por ai
Ao contrário do confrade DML sou apologista do comboio como alternativa válida ao avião para as deslocações entre cidades como Lisboa-Madrid ou Madrid-Barcelona.
Em Barcelona há muito que se suspira pela chegada do comboio de alta velocidade (AVE) principalmente as pessoas que têm de efectuar a viagem para Madrid regularmente através da chamada ponte aérea da Iberia. Recentemente fui a Madrid e optei por ir de comboio (não-AVE) pois a diferença de tempo e de preço entre as duas opções era negligenciável e apreciei a experiência (não tanto com o processo de compra de bilhete, mas isso é outra história). Fui bem sentado, confortável, não houve filas de espera, mudanças de porta de embarque, check in, etc.
Certo é que o AVE em Barcelona está prometido para este ano e tudo indica que os prazos venham a ser cumpridos. Pode ser que seja desta, pois também (nos tempos do PP) se dizia que o AVE chegaria em 2004 e à fronteira francesa em 2006. Estando nos dias que correm os governos central e autonómico alinhados sob a mesma bandeira socialista, torna-se mais fácil acreditar nas boas intenções dos políticos. Business as usual.
Ontem começaram os testes no penúltimo troço da linha do AVE, chegando este agora a pouco mais de 12kms da capital catalã. No final do ano, iniciar-se-á a exploração comercial do dito e com uma velocidade garantida de 300km/h as duas cidades ficam à distância de duas horas e meia, o que deixa as vantagens do avião a "voar". É que só o tempo de voo são uma hora e dez minutos. Fora potenciais atrasos e o tempo de espera no aeroporto.
Em comparação em Portugal continuamos em estudos e projectos. A 3ª ponte, a entrada pelo Sul ou pelo Norte em Lisboa e detalhes que tais continuam a emperrar a verdadeira implementação da alta velocidade. Se bem me lembro, o primeiro projecto do TGV apareceu em 1997 ou 1998. 10 anos depois continuamos na mesma, estudos, estudos e mais estudos. Linha férrea é que nem vê-la. Raios! Também há 10 anos ou coisa que o valha que temos comboios pendulares que não circulam ao máximo da velocidade em 90% do percurso Lisboa-Porto. Não é de espantar que hoje uma viagem de comboio entre Lisboa e Porto demore sensivelmente o mesmo tempo que uma viagem Madrid-Barcelona quando a distância entre estas duas últimas cidades é praticamente o dobro. Nem me quero lembrar dos milhões "investidos" nas "melhorias" da Linha do Norte. Até agora nickles, papagaio.
Apenas baboseiras como a da Secretária de Estado que atirou para o ar o valor de 100 euros para os bilhetes para Madrid (ida e volta? Só de ida?). Primeiro, esses números já tinham sido apresentados pela RAVE em 2005 (e tenho ideia que eram ligeiramente inferiores) numa viagem "virtual" em que até simulacros de bilhetes entregaram; segundo porque apresenta em 2007 e a preços de 2007 um produto que estará no mercado na melhor das hipóteses, descontando mais atrasos nos projectos, mudanças de ideias e anos "anormalmente pluviosos" (private joke para quem lida com obras públicas), em 2013. Daqui por seis anos. Seguramente que na RAVE também terão pensado o mesmo que os engenheiros da RENFE dizem à boca pequena sobre a Ministra dos Transportes: "O que vale é que é a última inauguração que faz de um AVE", referindo-se à gaffe da referida em recusar veementemente a exploração comercial do serviço à velocidade de 350km/h ainda que as linhas, comboios e sinalização estejam preparados para esse efeito. Os engenheiros da RENFE percebem o essencial da coisa: as hipóteses de sucesso do AVE sobem proporcionalmente com o aumento da sua velocidade de exploração. Ou acham que o recente recorde de 572km/h do TGV francês foi para inglês ver?
Pena é que do lado espanhol da fronteira se preparem para limitar o AVE a uma velocidade máxima de 250Km/h e um traçado estupidamente sinuoso. Aí sim está o maior óbice ao sucesso da linha Lisboa-Madrid: garantir que o trajecto se fará em duas horas e meia - três horas.
Quanto aos preços dos bilhetes, em 2013 logo veremos como está o preço do petróleo, a saúde financeira das low cost que servem Lisboa-Madrid e os preços que politicamente se quiserem determinar para o serviço. Ou alguém acha que os 70-75 euros que custará o bilhete de ida Madrid-Barcelona cobrem os custos de exploração?
Já os custos de investimento, esses, de um lado e de outro da fronteira são perfeitamente irrecuperáveis.
Terminando com o mercado de clientes potenciais. Em 1990 quando abriu a linha Madrid-Sevilha, ou nos anos 80 quando começaram a ser exploradas as linhas francesas o mercado ferroviário de alta velocidade não existia, criou-se. E com a cada vez maior integração entre Portugal e Espanha, sendo certo que o volume de passageiros não será semelhante ao eixo Madrid-Barcelona, acredito que a ligação entre Lisboa e Madrid se irá tornando progressivamente mais utilizada. Há cada vez mais portugueses em Madrid e eventualmente espanhóis em Lisboa. Daqui por 10 anos, mais haverão.
