Valha-nos o DN!
Em mais um artigo daqueles livres de pressões, influências e em geral descomprometidos a jornalista "Jacinta Romão" brinda-nos com a sua interpretação da mais recente reunião da conferência episcopal portuguesa, de título "Igreja radicaliza posição no referendo sobre o aborto".
Ora o grosseiro artigo vêm inquinado desde o título, «radicaliza», seguindo por extractos do mencionado comunicado. Define a independente periodista que o radicalismo é definido por oposição à posição do Cardeal Patriarca D. José Policarpo que considera que a questão é de foro de consciência de cada indivíduo cabendo a este fazer a escolha.
Oh Madame Jacinta, ao contrário da redacção do Diário de Notícias onde quem mais ordena é o António José Teixeira e a Fernânda Câncio, a Conferência Episcopal é um orgão plural e dialogante, onde os clárigos dele pertencentes debatem e elaboram em conjunto comunicados que por vezes espelham verdadeiros compromissos entre as diferentes susceptibilidades. Óbvio que o radicalismo e imparcialidade não são de esperar da Conferência Episcopal que formada por clérigos, debatem as questões e enquadram as mesmas não só de acordo com as suas susceptibilidades mas também de acordo com a doutrina da Igreja que mantém um coerência que obviamente não se compadece com a análise primária e costumeira de agrupar tudo em radicais e moderados, como se as pessoas se enquadrassem somente em modelos de pensamento binários.
O vício não é do DN mas sim dos media em geral, radicais são os que determinado pensamento politicamente correcto abomina e os moderados, os que defendendo igual pensamento levantam menos celeuma ou mais simpatia à inteligenzia que comenta. Fenomenos como generalização e ignorância, para além do personalismo e primado da consciência individual são meros pormenores no básico agrupamento entre «radicais» e «moderados».´
Continuando, parece que o radicalismo da mencionada Conferência, para além de ser avesso ao pluralismo interno que a Igreja vive e têm, para além do seu diálogo interno, é considerada radical a posição da Igreja que o referendo é errado desde o primeiro momento, uma vez que cumpre a "veleidade" de dizer que há matérias e issues que não devem ser colocados à discussão, ou seja a vida humana.
Ou seja é argumento da Igreja que a vida humana existe desde o primeiro momento, desde a concepção, e existindo vida humana, seja com 1 dia, 1 semana ou 1 mês esta não deve ser colocada em perigo ou simplesmente "interrompida" por tal não ser proibido. A questão é profunda sem dúvida, contudo é inegável pela ciência que desde o momento de concepção há uma vida distinta que não é um apêndice da mulher e sobre a qual esta não pode decidir livremente como se fosse prerrogativa sua. A disposição incriminadora no aborto destina-se também a proteger o feto. Em bom rigor são argumentos que inteiramente válidos não chocam em questões de direito da mulher ou outras ficções que para o efeito são criadas.
Mais ainda, reduzir tudo e mais alguma coisa a referendo ou democracia é reducionista e errado intrinsecamente pois ignora não só realidades humanas naturais per si, mas também valores comuns a todos os humanos. O critério do número poderá servir para muito, mas não certamente para definir o que é a vida humana, a morte ou outras coisas, e é também esse o radical pensamento da Conferência Episcopal que de radical nada também mas sim de prudente e humano.
Deixando a Jacinta para trás chegamos à Fernanda [Câncio], que do alto da sua moralidade dá lições aos que habitam o sopé da montanha de conhecimento que esta subiu. Ora o oráculo de modernidade em mais um manifesto, neste caso intitulado "Dos Bispos e da Tirania", vitupera os membros do clero que decidiram emitir o comunicado, que nada mais reflete que o pensamento longo da Igreja sobre esta matéria, recolhendo em súmula diversos argumentos que são já de conhecimento geral ao longo dos anos. Pelo tom de suas palavras adianto que mais tirânica deve ser a redacção do DN, sem que mal venha ao Mundo.
Sem pejo nem o mínimo de cabimento é tudo varrido pelo furacão Câncio que nos seus turbulentos pensamentos poucas subtilezas conhece, se o clero diz que há coisas que não são sujeites a votação é porque é pouco democrático e se, «Votar, mesmo que seja no "não", é admitir que pode ser um poder democrático a decidir sobre algo que, de acordo com a sua doutrina, só a divindade», ou seja uma surriada de tudos e nadas, pautando a questão por uma amálgama de pensamentos, com regras de jogo em que vale tudo, até ser bestialmente ignorante e intelectualmente falso.
A Igreja condena justamente o referendo, por colocar em discussão assuntos que se encontram para além de discussão por serem realidades humanas básicas, não se podendo reduzir ao número o que é vida com dignidade legal e vida sem dignidade legal. Tal pensamento leva a que assuntos como a pena de morte ou outros possam ser referendados com igual leviandade e ao sabor das conveniências do momento. Reconhecendo que existem duas esferas distintas, a da religião e política a Igreja não exorta os fieis a votarem, mas também não promove o oposto, apenas indica a sua orientação que em ultima análise será sempre uma posição de consciência individual.
Claro está contudo que as realidades humanas ou naturais são imutáveis, ou seja uma vida é sempre uma vida...
Como respondem então os adeptos do não aos casos já admissíveis em lei para aborto? De forma serena e consciênte, que se fundam em casos de força maior ou saúde pública que constituindo excepções legais ao princípio inelutável da vida são tolerados ou constituem na opinião de muitos e ao avesso do pensamento da Igreja excepções que uma vez preenchidos os seus pressupostos devem ser salvaguardados e conhecem ´já há muito no direito legal salvaguarda.
Terminando há muito escrevo e digo que a questão do aborto se encontra viciada por uma inteligenzia urbana que simplesmente não se conforma nem com o facto do país todo não se deixar irradiar pela luminosidade de seus pensamentos...
