Os embasbacados
A comunicação social e os indígenas deste belo pais vivem em constantes estado de espanto, estupefacção ou embasbacamento. À populaça, servida pelos seus nobres jornalistas é servido um buffet de notícias do coração, histórias de interesse humano e embasbacamento, seja pelas dunas da Caparica, pela "menina de torres" ou outra historieta qualquer.
Uma mente embasbacada não pensa, não reage a estímulos, nem critica o que está em redor, vive em semi-consciência, da qual digamos também que não convém despertar o "average José". Os três F's de ontem, outros três F's de hoje, Fofoca, Futebol e Ficção Nacional. Com bastante ironia acrescento, nem de propósito e nada martelado. É notório que os portugueses pouco se interessam com temas que ultrapassem a sua esfera de interesses, ou seja o que lhes toca, a mudança de horário no centro de saude, as "carreiras" dos autocarros, a neve, o sol, o frio, as greves, as meninas de "torres", alguma pequena corrupção e as novidades do coração. O resto passa muito debaixo do "mainstream" cultural.
Alias nem temos por cá essa tradição, e a história demonstra que fazer demasiadas ondas por cá não determina grandes carreiras ou futuros brilhantes.
Infelizmente as principais questões europeias ou mundiais são demasiado filtradas pelos media nacionais que, tremendamente ignorantes e representando os cinzentões do regime do "centrão" ora adoptam posições consoante os expedientes de momento e suas implicações com os líderes políticos do momento. O debate em torno das eleições francesas, o problema de terrorismo em Espanha (alegremente filtrado pela PRISA na TVI), as relações com a Rússia, a iminência da saída de Blair. Ademais tal sucede também com temas internacionais, a questão iraquiana é sempre servida da mesma maneira, os vis ocupantes, o estado de caos, os pormenores que tanto aprazem aos nativos que nunca têm um panorama mais lato.
De forma manifestamente grosseira são temas diversos, nacionais ou não manipulados consoante os ventos nacionais do momento, vejamos, o caso dos voos da CIA, que nos idos de Durão e Santana eram vergonhas nacionais e hoje são vetados à indiferença? Ou outros, tais como as ingerências e politização da informação pública que quando falada por Pacheco Pereira nos tempos de Santana merecia a maior atenção e hoje, com os mesmos argumentos ou outros ainda mais pungentes são vetados a ignotas críticas.
Seja por feitio, seja por instrução em boa verdade não vale a pena dar ao povo aquilo que ele não quer, até porque assim só se torna menos dócil e aspero para governação. Um escandalozinho alí, uma indignação aqui, a neve, a chuva, o sol, a ponte ou outra coisa qualquer que sirva para embasbacar um pouco a mente e distrair um pouco.
