Espaço de crítica tendencialmente destrutiva

sexta-feira, outubro 06, 2006

Nem tudo são rosas

Escrevo este post em resposta à classe que há em Espanha e que, alegadamente, parece ausente no nosso cantinho à beira-mar plantado.

É verdade que os anos 90 foram de expansão aqui no país do lado e que o espanhol médio vive bastante melhor que o seu congénere português, especialmente se compararmos o início e o final da era Aznar. Não há dúvidas. Não pode haver. Basta passar aqui uns tempos para perceber isso.

Falemos então nas coisas más deste lado da fronteira:

1 - Crescimento económico com pés de barro

Como acima referi, Espanha tem crescido sustentadamente mais que Portugal. Aliás, as últimas negociações para aumentos na função pública comprovam isso: 3% (com probabilidade de crescer até 3.8%) aqui, 1,5% em Portugal. Dá para imaginar as distintas reacções dos sindicatos.

Mas como podem os espanhóis dar-se a esse luxo? Porque a economia tem crescido, claro. Mas tem crescido porquê? A resposta é assustadoramente simples: sector da construção civil e a correspondente bolha no mercado da propriedade de imóveis. O motor da economia espanhola é apenas e só o do betão. Se descontarmos o efeito betão nas contas espanholas, verificamos então que o seu apregoado crescimento é bastante mais modesto que o oficial. E todos sabem que um crescimento económico assente na construção civil é menos saudável, dura menos e mais perigoso que um crescimento assente no consumo interno ou na capacidade exportativa. Inclusivé, ainda ontem nos jornais vinham notícias precisamente sobre o abrandamento do crescimento espanhol à custa de uma "aterragem suave" no sector da construção.

Consequência da importância deste sector (que vale 12% do PIB) é a tranquilidade com que as suas maiores empresas atacam os antigos gigantes do sector elétrico. A Acciona da família Entrecanales atirou-se à Endesa fazendo frente à E.ON e preparando uma OPA concorrente. A ACS de Florentino Perez prepara também a tomada da (para nós) célebre Iberdrola, previsivelmente para a fundir com a Unión Fenosa.

2 - Corrupção e/ou clientelismo

Se há coisa que mete os cabelos em pé à malta aqui de Barcelona em relação aos anos Aznar, é a corrupção que caracterizou os anos finais dessa época. Os comentários que em Portugal fazemos em relação à propriedade dos terrenos em redor da OTA são idênticos aos que aqui se dizem sobre os terrenos perto das estações do AVE (TGV). A mais gritante é a estação de Valladolid...a três ou quatro quilómetros da cidade. Risos!

Associado a isto está o facto de estarmos quase em 2007 e AVE em Barcelona nem vê-lo. O PP torpedeou esse sonho da populaça, não dando fundos para uma linha Barcelona-França (a qual era considerada prioritária para a região) e terminando o AVE de Madrid em Lleida (a 150 ou 180kms de Barcelona). Todos sabemos que Lleida é a cidade mais importante desta zona. É mais ou menos como o TGV Lisboa-Porto parar em Aveiro. É uma versão refinada (e mais cara) do nosso tão português favorecimento das autarquias da cor do governo central.

3 - Custo de vida

Embora a economia tenha crescido, o custo de vida aumentou exponencialmente, ao mesmo tempo, que vão aparecendo oportunidades de emprego cada vez piores para os mais jovens, a que chamam de "mileuristas". E como o valor médio das propriedades em Espanha disparou na última década, aqui é ainda mais impossível a um jovem sair de casa dos pais para comprar ou mesmo arrendar uma casa sozinho. Basta ver as manifestações que ocorreram este fim-de-semana em diversas cidades espanholas. Ao menos poderíamos pensar que as casas são boas. Mas não, as casas aqui em Barcelona são horríveis. A qualidade de construção (tanto antigas, como novas ou renovadas) é de fugir. Seguramente envergonhariam o mais matreiro empreiteiro português.

Outro factor relacionado com o pesado custo de vida são as comunicações. É inacreditável o preço das chamadas fixas e móveis em Espanha. Se em Portugal pago num telemóvel com cartão da Vodafone 6 cêntimos por minuto já com IVA, aqui pago 18+taxa de activação+iva.

4 - Programação televisiva

Pessoalmente penso que é na programação televisiva generalista que se vê o quão tacanha ainda é a mentalidade espanhola. São mesmo muito pequeninos. Basicamente, imaginem a tertúlia cor-de-rosa da Fátima Lopes todo o santo dia na televisão, em todos os canais disponíveis em sinal aberto (menos um, o canal latino, que não tem qualificação possível). Mas são tertúlias que fazem parecer o Cláudio Ramos um anjinho de coro. Um exemplo, ontem ao fim da tarde, enquando degustava uma cervejita na calmaria do meu ap, liguei a televisão. E na Antena 3 estava um rapaz (filho de um actor conhecido) ligado a um polígrafo e a responder a perguntas tão inócuas como isto:

"Alguma vez impediste o teu pai de ser internado num hospital psiquiátrico após consumir calmantes em quantidades excessivas?"

"Alguma vez foste abusado fisicamente em criança?"

"Alguma vez traíste um homem com uma mulher?"

"Alguma vez foste abusado pelo teu pai?"

Palavras para quê?

Ah...one more thing: a mentalidade é tão tacanha que continuam a dobrar tudo (séries, filmes, documentários, o que seja) o que sejam programas estrangeiros.

PS: Aproveito para enquanto membro único, fundador e ditador vitalício, da Subcomissão secundária de avaliação jurídica e forense para endereçar os meus sinceros parabéns ao camarada blogger AOC pela sua brilhante agregação. E mais, vou agora mesmo telefonar ao Ilustre Colega.

2 badaradas:

Anonymous Anónimo said...

Mas quem é que trouxe este gajo?!!

5:13 p.m.

 
Blogger Xosé Manuel Carreira said...

Mileurismo na melhor geração de jovens da Espanha (acho eu), imigração e novos ricos e estrangeiros com dinheiro são a causa do crescimento espanhol, mas obviamente isto não é sustentável.

Em Portugal ainda é pior na minha opinião porque, como me disse um colega do Minho, há muitos ordenados de três dígitos e Portugal já não é aquele país do café a 75 céntimos.

12:27 p.m.

 

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