Mais uma data!
Passando 70 anos sobre o pronunciamento militar espanhol que marcou o início da Guerra Civil espanhola, o sempre oportuno Zapatero decidiu preparar o caminho para a aprovação da lei da Memórica Histórica, com o intuito de ressarcir as vítimas de ambos os lados do conflito,e as da ditadura franquista que se lhe segiu. A esta voltaremos no final, até porque aqui é que começam as divergências, no início, para uns a II República Espanhola era um farol de democracia e liberdade, com o seu governo de frente popular amalgamando PSOE, comunistas e outras forças de esquerda. Para outros um regime proto-democrático que quando produziu uma coligação de direita nas urnas se tratou por via de agitação nas calles de sufocar.
Não vamos aqui discutir a II República Espanhola somente salientamos, não sem despicienda ironia que nas greves e tumultos de 1934 nas Astúrias e subsequente alastramento a outras províncias mais proletária se recorreu sem pejo às armas do exército de Marrocos para a controlar, com bastante violência ganhando assim o Exército de Marrocos a temível reputação que veio a confirmar pela serra de Guadalajara.
Questionamos pois a nefanda intempestividade histórica do mesmo, a Espanha encontra-se em momento de discussão da sua orgânica interna, o separatismo e as forças nacionais encontram-se em plena expansão, ora que sentido fará lançar sal numa ferida profundíssima? Os costumeiros ranchos folclóricos da esquerda apreciam-na é obvio a lei apoia as vítimas da feroz ditadura franquista, invertendo assim o outcome da guerra, os vencedores passam a vencidos e vice versa...
Um dos erros comuns ao analizar um conflito civil no qual intervêem várias potências internacionais é precisamente pesar demasiadamente o seu papel, ignorando assim a pior e mais grave realidade latente a qualquer conflito deste género, a luta fractricida entre irmãos, familiares, amigos, vizinhos, conhecidos ou somente espanhois, habilmente Hitler e Estaline meteram a sua colher no conflito apoiando cada um o lado com o qual teria as maiores afinidades ideológicas.
Curiosamente em '36 as purgas soviéticas estavam de vento em popa, a luta entre a velha guarda bolchevique predominantemente trotskista e a linha estalista, que alinhando do mesmo lado da barricada se entreteram a lutar entre si manipulando-se entre si ou afrontando-se com mortos como sucedeu em Barcelona em '37, terminando numa purga servida pelos "conselheiros" soviéticos.
A incompetência comunista na condução da Guerra foi possivelmente um dos principais motivos para a derrota. Estaline, frio e calculista nunca deverá ter vertido uma lágrima pelos irmãos vermelhos tombados nos campos de Espanha até porque estes serviram os seus interesses, ou seja limpou-se boa parte da poeira trotskista. Pena que os comunas quando falam da Guerra Civil de Espanha nunca contem estas aventuras de lutas internas e repressão como a morte de Nym, preferindo claro demonizar e hiperbolizar a intervenção alemã, italiana e até portuguesa, tal é o trauma.
Sem querer desenvolver este ponto excessivamente não podemos deixar de salientar a astúcia de Estaline que se serviu do conflito, bem como da ingenuidade de Largo Caballero e outros dirigentes republicanos. Igualmente não podemos deixar de sublinhar a natureza de camaleão de Franco que usou de forma muito mais hábil o seu apoio externo, nunca consentindo em que conselheiros do Eixo dessem ordens a não ser nas suas tropas ou conduzissem campanhas, alias lição dura aprendida pelos italianos quando muitas vezes por ordens de Mussolini lançavam ofensivas sem apoio espanhol e que salvo excepções logravam somente em engrossar o número de baixas, italianas claro...
Franco como bom espanhol nunca deixou que estrangeiros lhe metessem a pata em cima ou o manipulassem como marioneta...
Acabamos sempre a escrever sobre o que não queremos... Voltando à vaca fria, Zapata ressuscita a luta fractricida ao assinalar o dia de hoje, aquele dia em que há 70 anos infelizmente os espanhois tiveram de escolher um lado, a demarcação que havia começado antes conheceu a sua húbris de 1936, desde aí o caminho tomado só poderia terminar com vencedores e vencidos, com mortos e feridos, com hérois e presos políticos.
Ressuscitar em lei o pós 1939 é pouco são e demasiado ignorante para ser verdade, abrir essa caixa de pandora nunca é de forma inocente e visa somente um revanchismo primário cujas consequencias se conhecem. Estranhamente em Espanha, não se fala dosos efeitos da prosperidade económica, da falta de deficits ou de outras coisas que deviam fazer os nossos vizinhos felizes mas sim do crescente mal estar que perpassa a sociedade, dos nacionalismos e dos lados da barricada de '36 ou do resultado dessa luta. A lei para a memória histórica é um revisionismo abjecto e ignorante, comum entre os que ignoram a história, tentar limpar as mãos com dinheiros e indemnizações é perigoso, atribuir por lei vitórias morais também.
Parecendo simplista o melhor será encarar as coisas como elas são, que houve um conflito entre irmãos e que o mesmo não se deve repetir, como estudando-o de forma isenta(impossivel) e imparcial mas sempre com o propósito de o contar como foi, com atrocidades e sangue, mas nunca tentando impor uma moral, nunca especialemente tentando impor uma versão ou exonerar um lado de responsabilidades, arcando o outro com as responsabilidades e em caso algum premiando vítimas ou corrijindo a história. Os resultados da demanda de Zapatero serão desastrosos, por vezes o tempo é o melhor que pode suceder sobre eventos que não devem lavados, somente evitados e aprendidos!
A história dos conflitos civis demonstra claramente que não há vencedores nem vencidos, demonstra também que conflitos como estes são sujos e não nos permitem ser puritanos e dizer que uns e outros foram bons ou maus. A batalha Sr. Zapata terminou em '39, celebre pois a transição democrática consensual e outras coisas, não se pode por decreto escrever história e honrar os mortos uma vez que as coisas são como são e as forças motrizes do universo produzem calamidades como Guerras , especialmente as de indole civil...
