Operação Mar Verde
Operação Mar Verde é o título de um livro que visou ser um bom exemplo de jornalismo de investigação acerca da operação militar com o mesmo nome decorrida na Guiné Portuguesa em 1970. O livro de António (?)Marinho é interessante pois cumpre a promessa constante da contra-capa, recrear as emoções e ambiente que cercearam a mesma.
Vamos por partes, Guiné, 1970, Governador da Província o General António de Spínola(G.A.S). Nomeado no final de 1968 o G.A.S. decide mudar a política de combate ao PAIGC, não através de uma escalada do conflito mas sim através de um reforço nas zonas fronteiriças que por serem demasiadamente porosas permitem que os guerrilheiros do PAIGC, com bases na República Democrática da Guiné penetrem no território nacional e inflijam perdas não somente às tropas portuguesas mas também e especialmente aos civis. O G.A.S. ciente da importância de ganhar o apoío das populações autócones lança uma campanha de "marketing político" de forma a convencer as populações a não apoiarem o PAIGC. Em troca oferece melhores condições sanitárias, de saude, assistencia social e formação escolar, é a política dos aldeamentos fortificados, dos quais os civis seriam a primeira linha de defesa contra a guerrilha. G.A.S. enfrentando as resistências de Lisboa inicia o armamento e instrucção dos locais.
A política de Spínola têm sucesso, a situação na Guiné entra num controlo mais ou menos estável e as vias fluviais mantém-se controladas pelas tropas nacionais que lançam frequentemente emboscadas às tropas do PAIGC, as tropas portuguesas mantém-se na ofensiva, o PAIGC se não fosse o apoío soviético e dos paises vizinhos, nomeadamente a Rep. da Guiné de Sekou Touré teria sido virtualmente destruído e a quimera da independência desejada da Guiné por parte dos guerrilheiros adiada vários anos.
Não obstante a evolução positiva no terreno Spínola entende que a situação na Guiné só poderá ser vencida em termos políticos, são conduzidas aproximações no terreno ao PAIGC e aos vizinhos da Guiné. Estas são dadas como goradas entende o General que é altura de arriscar e de ganhar manobra, na sua opinião que favoreça maior manobra à mesa de eventuais negociações. Especula o autor do livro se na cabeça do General já teria germinado a ideia do livro "Portugal e o Futuro", asseverando contudo que as sementes do mesmo, bem como a ideia de uma Federação Luso-Africana na qual os portugueses nativos da Guiné tivessem maior autonomia se conquistaria de espaço de manobra conquistado no terreno.
São estes os preliminares da operação Mar Verde. Spínola, com base em planeamento de Alpoim Calvão, decide lançar uma ambiciosa operação militar contra um país terceiro, neste caso a R.D.Guiné de Touré. Objectivos vários:
(i)Com ajuda de exilados Guineenses lançar um golpe de estado contra Touré (aniquilando o mesmo)
(ii)destruição da marinha e força aérea da Guiné
(iii)destruição de base do PAIGC e suas estruturas, comunicações, sede, escolas de guerra e doutrinação política, prisões políticas afectando gravemente a sua capacidade de levar a guerra à Guiné Portuguesa
(iv)libertação de prisioneiros de guerra portugueses em posse do PAIGC
(v)aniquilação de base de conselheiros cubanos na RDGuiné
(vi)captura da liderança do PAIGC inclusivamente Amilcar Cabral
(vii) destruição de outras estruturas que coloquem uma ameaça às forças portuuguesas.
A operação seria realizada por uma componente naval e terrestre, as tropas seriam constituidas por Fuzileiros Portugueses, oficiais, sargentos e praças europeus (brancos) e africanos(larga maioria, pretos) e por exilados guineenses do regime totalitário de Touré, os quais provavelment e tivessem sucesso instaurariam um regime menos homicida que o anterior cuja maior qualidade seria a de ser um regime que serviria os interesses portugueses. Total, cerca de 400 homens em iguais proporções.
Caso o bom leitor tenha chegado a esta parte, agradecemos a atenção, sintetizando a missão logrou alguns objectivos nomeadamente a libertação dos 26 portugueses prisioneiros do PAIGC, a destruição da marinha do PAIGC e guineense, a destruição das bases do PAIGC e da sua estrutura operativa entre outros. Falhou em dois objectivos essenciais, o golpe de estado e aniquilação de Touré, bem como a captura da liderança do PAIGC. Curiosamente Amílcar Cabral, o lider do PAIGC e um tipo razoavel segundo Spinola, foin assasinado em 1973 pelos seus proprios compatriotas, embora se culpe a PIDE/DGS por isso.
Resultado final, falhados os objectivos políticos valeu a operação pela libertação dos prisioneiros de guerra portugueses e mais um ou outro objecto estratégico. Spínola jogou e perdeu, a situação na Guiné escalou a partir de '71 o PAIGC obteve mísseis terra-ar que afectaram o equilibrio de forças no terreno. O golpe de mão de Alpoim Calvão e Spínola foi audaz e corajoso mas um fracasso político. Contudo a operação ouy a situação na Guiné nunca se perdeu, a nãos quase no fim nas selvas mas sim nos corredores de Lisboa. Caetano era refém entre os ultras de Américo Tomaz e outros militares e os liberais de Miller Guerra e Sá Carneiro. Em '74 já era notório que a corda ia quebrar para o lado deste com prejuízo para uma transição mais pacífica e inadiável. Caetano teve esperança até ao fim que o tempo ganho nas selvas fosse o suficiente para que Portugal conseguisse um compromisso da CEE de forma a aderir antes ao projecto europeu, permitindo aí a abertura do regime e a automia ou quasi independência das colónias.
A cartada de Spínola em '70 é ainda de dificil análise política e poderia abrir um debate histórico interessante que a poucos interessa e a menos "aquece"! Nos por cá sugerimos ao bom leitor que se interesse por estes temas a leitura do livro, este está escrito de forma emocionante e é de leitura fácil, pese mto embora algumas repetições. A reflexão política sugerida é pelo menos na nossa opinião bem mais interessante que a dos 30 anos da Constituição mais cretina de sempre na historia constitucional portuguesa que é a semente do retrocesso cultural e que protege os interesses instalados e os senhores dos partidos políticos, veremos contudo até quando...
