Será assim?
Reportando-nos aos festejos populares derivados do feito de armas da equipa nacional de futebol e inerente cobertura mediatica não podemos deixar de fazer bastantes reparos, uns certamente correctos outros nem por isso se calhar, em todo o caso ficam para o registo das coisas. A coerência é um valor algo incómodo numa sociedade que se caracteriza pela lassidão de costumes e valores que coexiste com uma falta de consciência crítica a toda a linha.
Confesso que ao ver as imagens de todo o pais da vitoria, depois de um jogo sofrível e violento me causam o mais profundo estarrecimento e apreensão. Ultrapassado o momento inicial, caindo um qualquer alpinista do marquês somos forçados a dizer que os portugueses são grosso modo um povo tristonho, até na vitória ou em momentos de efusão nacional, senão vejamos a húbris dos festejos, igual em todo o lado no país, a turba pintalgada e envergando cores vermelhas ululando «Portugal Allez!», a multidão comprimindo-se de fronte de uma câmara, impropérios ouvidos entre as massas, empurrões, o tintol ou a cervejola, o zé de tronco nú e desdentado e claro aqueles que fazem a festa com a buzina do carro, castigando bairros residenciais e cercanias com apitadelas estridentes, brindando ruas desertas com sonidos e composições variadas entre pi pi pi pi e piiiiiii piiiiiii piiiiiiiiiii. Infelizmente a modinha da buzina que toca composições musicais já não se encontra tão em voga como anteriormente.
É o povo em festa dizem uns, é festa do povo outros, é do povo a festa dizem terceiros a verdade é que as marcas da comemoração são as mesmas em todo o lado, ou seja o povo de volta das cÂmaras em excitação febril e transcendente buscando os seus minutitos de fama e glorificação mediatica, embarcando num campeonato de idiotice para ver quem têm o boneco mais ordinário e sem graça, a bandeira mais pintalgada na cara, a Virgem Maria com o cachecol ou o tintol, uma pileca rançosa ladrando com pátrios adereços ou outra coisa qualquer que salienta somente a confusão e exiguidade de espíritos que para aí vão. Faltava claro a criançola gorda, sebosa ou simplesmente desgrenhada que já de avançada idade nos primeiros estádios da vida não pronuncia mais de dois vocábulos sem três erros de português ou simplesmente se acabrunha face à câmara entre empurrões e palavrões e somente balbucia palavras soltas como «Figo» ou outra qualquer.
É na festa, naquele estertor artificial e limitado que vemos profundamente não apenas quão aprecia o povo o «Pão e Circo», ao mesmo tempo que tudo mistura numa miscelânea de valores e cívicos, religiosos e fanatismo clubístico. È isso sim o que causa apreensão, o misturar-se tudo, o obnulamento (existirá esta palavra?) de tudo face a um ideal sejja ele o socialismo, o PREC as nacionalizações ou o futebol, ao mesmo tempo que nos é servido de uma forma miserabilista que mais uma vez sinto que me andam a tratar como estúpido, com cenas do Marquês de Pombal, dias da Selecção e rotinas dos craques. Ao mesmo tempo o sorriso do povo faz lembrar um desdentado com a dentição podre e esburacada... É que quando sorri, vêem-se os dentes, ou a falta deles...
Enfim ultrapassando esta imagem também demasiadamente carregada vamos então á moral da história festa é festa tudo bem contudo fazer da festa o centro das atenções, toda a razão de um viver, servido por comentários do género, dava a minha vida por isto, ou rezei à santinha ou ao santinho, ao beatinho ou outra coisa qualquer, ou então coisas idioticas do género vou a pé a Fátima ou o meu clube é portugal levame a dar razão a Afonso Costa e sua corja republicana do PRP que no princípio do século XX disse acerca da insubordinação popular face ás leis e decretos da República ou sobre as parcas capacidades de governo e consciência:«É necessário salvar o povo do povo!». Enfim esperemos que a coisa não seja assim...Será?
