Artigo do DN de 9 de Março
Artigo de Luciano Amaral, título «Cinquenta mil labregos»
Passam hoje 90 anos sobre um dos momentos mais gratuitos, mas com mais consequências a longo prazo, da História das Relações Internacionais Portuguesas: a entrada directa de Portugal na I Guerra Mundial. A 9 de Março de 1916, a Alemanha declarava-nos guerra, na sequência do aprisionamento de todos os navios mercantes alemães estacionados em portos nacionais. Os navios alemães, na verdade, nunca passaram de um pretexto do Governo de Afonso Costa para lançar o País num conflito em que desejou ardentemente lançá-lo desde o início, em 1914. Se a entrada portuguesa não se verificou logo nesse ano, foi sobretudo porque a nossa "velha aliada", a Inglaterra, não o quis. A Inglaterra sempre preferiu a estranha situação portuguesa dos dois primeiros anos, a não beligerância alinhada, que lhe permitia usar alguma colaboração portuguesa para certos fins logísticos sem ter de se co--responsabilizar pela defesa do nosso território, tanto na Metrópole como no Ultramar, ou financiar (como acabou por fazer) o esforço de guerra português. Foram as suas necessidades desesperadas na guerra submarina que a levaram a pedir o aprisionamento dos navios invocando a "velha aliança", do que resultou a declaração de guerra.
O desejo de entrar naquele que terá sido o mais absurdo dos dois conflitos mundiais foi sempre português desde o início, em particular da facção dominante do regime da I República. Este desejo teve origem no carácter fundamentalmente radical e não consensual do regime. É preciso perceber que a I República não foi a mera substituição do Rei pelo Presidente (que, aliás, poucos poderes tinha). Foi a passagem para um regime que tentou aplicar um programa de transformação radical (se necessário, violenta) da nossa sociedade de então. Por isso, a República nunca representou uma solução política estável e com a qual a maioria do povo (ou talvez fosse melhor dizer da opinião pública) português(a) soubesse conviver. Desde o início capturado por uma clique que entrou em conflito com o País, o regime foi um notável catálogo de arbitrariedades e violência. A tradicional conversa sobre a "longa noite fascista" do salazarismo parece pressupor que ela interrompeu um "longo e radioso dia democrático". A verdade é que a I República conseguiu o feito de juntar (sob uma aparência, estritamente formal, demo-liberal) o pior do autoritarismo formalizado, como as prisões e as deportações (tão vastas como durante o salazarismo), a proibição de partidos, a fraude eleitoral ou as limitações à liberdade de expressão, com o terror da violência informal, às mãos dos famosos Batalhões de Voluntários ou da Formiga Branca, mais próprio dos regimes totalitários.
Foi este regime que viu na I Guerra Mundial uma janela de oportunidade para finalmente se afirmar no País, criando um "sentimento nacional" ou uma "unidade nacional" que, evidentemente, o conflito com a Igreja e os chamados "monárquicos" (um conceito muito elástico) não criaram, bem pelo contrário. Em consequência, agarrou a oportunidade mal pôde, pôs o ministro da Guerra (Norton de Matos) a fabricar um Exército moderno à pressa e lá enviou, em 1917, para a Flandres um Corpo Expedicionário Português (CEP), que chegou a mobilizar cerca de 50 mil homens. Ou, como diria Aquilino Ribeiro, enviou para "o matadouro os meus pobres, ignorantes e pacíficos labregos". A estes juntou mais cerca de 50 mil, enviados para as colónias. Tosco, mal equipado e mal preparado, o CEP foi punido sem piedade pelos alemães, até à humilhação última de La Lys. No final (entre a Flandres e África), não voltaram cerca de dez mil "labregos". Para além desta carnificina, a participação portuguesa na guerra não serviu para praticamente mais nada, a não ser para uns convenientes empréstimos ingleses, já que os benefícios a pretexto das chamadas "reparações de guerra" arrancadas pelos aliados aos alemães foram irrisórios.
Serviu, porém, embora involuntariamente, para outras coisas. Para adicionar mais uma causa de insatisfação com o regime, que se juntaria às outras todas, e para uma importante expansão do Exército, que acabou por se constituir no repositório de todas as frustrações nacionais. Foi o que se viu com o golpe de 5 de Dezembro de 1917 de Sidónio Pais e, mais tarde e ainda mais, com o golpe de 28 de Maio de 1926, que poria termo à I República para dar origem ao salazarismo. Perante um regime incapaz de se fundar numa legitimidade política substancial, acabou por restar a última instância da violência legítima militar, sendo que um dos veículos para o surgimento do Exército enquanto agente político (tanto por via do aumento dos seus efectivos como da sua razão de ser) foi a participação na I Guerra Mundial. Depois viria, efectivamente, a "longa noite fascista". Mas, sem a explicar por inteiro, ela não é compreensível sem primeiro compreender a prévia "noite republicana".

é verdade, esta malta ainda não percebeu que enquanto houver esta farsa as coisas não avançam...
Diogão acho que devíamos ser os percusores de um novo conceito de Estado, uma espécie intermédia entre a "longa noite fascista" e a "madrugada pós-25 de Abril", eu chamar-lhe-ia "um fim de tarde, género lusco-fusco da democracia", uma democracia musculada, aceitávamos todos os partidos dignos desse nome (por definição o B.E. ficaria de fora), mas desde que não chateassem muito ;)
11:02 a.m.